Paisagem em que as leituras herdadas discordam abertamente, vazio de um lado e retiro voluntário do outro, e a sensação embaixo dos pés decide qual serve.
O deserto é uma das raras paisagens de sonho em que as leituras herdadas discordam na cara uma da outra. Uma linha fala de vazio, sede e distância de tudo que sustenta a pessoa. A outra, mais antiga e de origem religiosa, lembra que era para lá que se ia de propósito, para tirar o excesso da vida e conseguir escutar os próprios pensamentos. As duas continuam de pé porque cada uma bate com o que a cena provoca em um tipo diferente de sonhador.
Deserto é quente e seco, e quarto de janeiro com a janela fechada também. Boca seca, nariz entupido, desidratação depois de uma noite longa e ar parado costumam virar paisagem enquanto se dorme, porque o cérebro constrói cenário em volta daquilo que o corpo informa. Antes de subir para a camada simbólica, verifique se você acordou querendo água. Essa resposta sozinha explica uma parcela grande dessas noites.
Para quem cresceu num lugar seco, areia é chão de casa e não ausência, e esse detalhe passa por cima da leitura tradicional inteira. Quem já andou por um deserto costuma descrever o sonho como amplo e limpo; quem só conhece o lugar de filme descreve a mesmíssima paisagem como hostil. A tradição serve de ponto de partida, e é o seu próprio chão que decide qual das duas versões contraditórias fica com você.


