Uma das imagens mais frequentes em qualquer registro de sonho. A tradição lê o estado da água, e não a água em si, como retrato do sentimento.
A água aparece em mais sonhos do que quase qualquer outra imagem sozinha, e só isso já explica as páginas que os livros antigos dedicam a ela. A versão que durou mais tempo trata o estado da água como retrato do sentimento: limpa e parada para emoção que assentou, revolta ou turva para emoção ainda não resolvida. Nesse sistema a água é espelho, não acontecimento. Vale dizer desde já que essa imagem não chega igual a cada pessoa: quem nada toda manhã encontra ali uma companhia conhecida, e quem quase se afogou aos sete anos encontra coisa bem diferente.
Nessas interpretações a água em si é quase neutra. Tudo depende dos detalhes de que a pessoa se lembra de qualquer jeito.
Repare que nenhuma dessas linhas é previsão. São formas de devolver um estado de espírito a quem já andava com ele.
Muito sonho aquático tem causa que sistema simbólico nenhum precisa disputar. Quem vai dormir com sede, quem dorme em quarto quente demais ou quem levanta várias vezes para o banheiro relata esse tipo de imagem. Também relata quem passou a tarde na piscina ou a noite ouvindo chuva na vidraça. Se o mar apareceu na noite seguinte a um dia de praia, o dia de praia é uma resposta perfeitamente respeitável.
Onde ela é escassa, a tradição a lê como alívio e riqueza. Onde a enchente ameaça todo ano, a mesma cena chega como perigo. As duas linhagens são autênticas e nenhuma delas é a universal, e a sua história pessoal com a água conta mais do que qualquer uma delas.


