Um dos sonhos mais relatados que existem, quase sempre num lugar conhecido que foi remexido até nenhuma rua chegar onde deveria chegar.
Poucas pessoas atravessam a vida sem ter esse sonho, e convém saber disso antes de procurar sentido nele. A interpretação corrente trata o estar perdido como assunto de direção e não de geografia: uma decisão em aberto, um caminho que funcionava e parou de funcionar, um período em que o próximo passo realmente não está claro. O cenário quase nunca é um país estrangeiro. É a cidade onde você cresceu ou um antigo emprego, mexidos o suficiente para que nenhuma rua chegue onde deveria.
A mesma cena cai de um jeito em cada pessoa. Quem se orienta por profissão, ou quem costuma andar na serra, encara a situação como questão técnica com regras próprias; quem nunca teve senso de direção nenhum trata tudo como barulho de fundo. Não existe reação certa aí, e as duas informam mais do que um significado fixo, porque a cena é montada com a sua relação particular com não saber onde você está.
Esse sonho se concentra em época de mudança: casa nova, primeiro mês de emprego, fim de uma relação longa, curso que acabou, um país trocado por outro. Ele também vem atrás de viagem estressante, e quem já rodou de verdade uma noite inteira por uma cidade desconhecida com quatro por cento de bateria reconhece na hora de onde saiu o material.


