Cenário frequentíssimo nos relatos e dos mais fáceis de ler: a estrada trata de para onde você vai e de com que facilidade você chega lá.
A estrada é lida como a direção que uma vida vai tomando, leitura que ficou bem perto da óbvia e por isso atravessou os séculos sem mudar muito. Ela aparece nos relatos mais do que quase qualquer outra paisagem, o que não surpreende diante de quanto tempo da vida desperta a gente passa em cima de uma. O material útil não está no fato de haver estrada, e sim no estado dela.
Trajeto conhecido vem com bagagem à parte. O caminho até a escola da infância, a ida ao antigo trabalho, a saída da cidade que alguém deixou anos atrás: chegam com a cor emocional da época ainda grudada, e os manuais leem a época em vez do asfalto. Sonhar a estrada certa com as construções erradas em volta é comum e não significa nada por si. Cruzamento sem placa, retorno proibido e desvio mal sinalizado seguem o raciocínio do piso: são estorvos de percurso, discutidos como demora e nunca como impedimento definitivo.
O detalhe que vale guardar é quanto controle havia. Andar, dirigir e ser levado entram como três graus de voz na questão, e o mesmo trecho de asfalto muda inteiramente de peso conforme quem passa por ele: um motorista de estrada, alguém que resolve tudo a pé e alguém ainda abalado por uma batida não estão vendo a mesma coisa. Quem sonha define o sentido e o dicionário vem atrás.


