A peça do guarda-roupa que encosta no chão, lida como o apoio que a pessoa tem: o papel que ela veste e o quanto está pronta para a distância.
Sapato é a única roupa que toca o chão, e toda leitura tradicional dele parte disso. Ele representa apoio no sentido mais amplo: o papel em que a pessoa circula, o trabalho que faz e se está equipada para o tanto de caminho que ainda tem pela frente.
As versões incômodas são as que as pessoas relatam. Sapato que não serve é lido como uma posição assumida que não cai bem, e se ele aperta ou escapa do pé é tratado como dado relevante. Perder o par no meio de uma viagem entra nas imagens de posição perdida. Estar descalço se divide em dois. Em algumas leituras é fragilidade e falta de preparo; em outras, sobretudo onde tirar o sapato marca respeito ou marca estar em casa, é confiança. Qual vale depende da cultura em que a pessoa foi criada.
Par novo é glosado como troca de papel, e as listas antigas quase sempre acrescentam uma nota sobre o período desconfortável antes de amaciar. Sapato bem usado carrega o sentido inverso, de algo feito há tempo suficiente para ser feito com folga, com uma observação secundária sobre a hora de trocar. Os estragados ficam entre os dois.
Calçar o sapato de outra pessoa é lido em quase todo lugar como assumir a posição dela, ideia que o português já guarda quando alguém fala em se colocar no lugar de alguém. Quem interpreta pergunta se o pé coube bem, porque é aí que a imagem trabalha.
Sapato carrega classe, trabalho e memória como poucos objetos, então o que aquele par significou na sua vida vem antes de qualquer coisa geral. O sapato usado num enterro e o comprado para o primeiro emprego não são o mesmo símbolo.


