Uma cena quase sempre precisa, lida como perda de segurança, de posição ou de esforço gasto sem retorno, e nunca como quantia.
A cena costuma ser precisa: notas contadas duas vezes que não fecham, a carteira que estava ali um segundo atrás, moedas escapando por um furo no bolso. Perder dinheiro é lido na tradição como a perda de algo valioso que pode não ser dinheiro nenhum, na maioria das vezes segurança, posição ou esforço gasto sem retorno. Os livros antigos são constantes nesse ponto e quem escreve hoje manteve a linha, muito porque o relato fala sempre de esvaziamento e quase nunca do valor que sumiu.
O dinheiro serve aos sonhos há muito tempo como moeda geral daquilo que vale a pena. Perdê-lo, portanto, aparece como algo escoando, e o olhar recai sobre o lugar da perda bem antes de recair sobre a quantia. Perder em público está ligado a reputação e a vergonha. Perder dentro de casa remete a recursos privados sendo consumidos. Notar a falta só muito depois sugere algo que vinha acontecendo sem ninguém reparar. Não achar um dinheiro que você tinha certeza de ter costuma ser lido como a suspeita de que a conta do seu esforço não está fechando.
Precisa ser dito: gente sob aperto financeiro real sonha com dinheiro. Isso não é símbolo coisa nenhuma, é uma preocupação seguindo a pessoa até a cama, e é de longe a razão mais frequente desse sonho específico. Um boleto, um contrato, uma fatura em aberto ou um mês com mais saída do que entrada produzem a cena com regularidade. Quando o aperto afrouxa, o sonho costuma ir junto, o que já diz bastante sobre o que ele era. Pesa também o que o dinheiro significou ao longo da sua vida, porque uma infância em que ele sempre faltou deixa nessa imagem algo que uma infância sem essa pergunta nunca coloca.
Sonho não prevê perda, e nada nessa tradição serve de razão para mexer numa decisão de dinheiro. Quem estiver pesando uma decisão de verdade se serve muito melhor de alguém habilitado a olhar os números com você.


