O osso sustenta um corpo e também é o que sobra quando tudo o mais some, e as leituras desse sonho se dividem nessas duas linhas.
O osso faz duas coisas ao mesmo tempo, e a interpretação segue as duas. Ele é a armação que mantém uma forma de pé e é a parte que dura mais do que tudo o que é mole. A versão dominante fica com o primeiro sentido: ossos representam a estrutura de baixo de uma vida, os arranjos que a mantêm em pé olhe alguém para eles ou não.
Quem chega a este verbete costuma supor que a imagem pertence ao campo da morte, e na maior parte das vezes não pertence. Os dicionários oníricos a colocam bem mais perto de alicerce, e expressões como sentir uma coisa nos ossos sobrevivem justamente porque o osso carrega a ideia do que há de mais fundo e mais confiável numa pessoa. Osso quebrado em sonho aparece como um apoio cedendo, e não como afirmação sobre machucado: a cena não diz absolutamente nada sobre o seu corpo.
Onde eles surgiram pesa mais aqui do que qualquer outro detalhe. Ossos vindo da terra são tomados como algo antigo voltando à tona, muitas vezes algo enterrado de propósito. Ossos arrumados numa vitrine de museu recebem leitura bem diferente, de história organizada e transformada em coisa segura de olhar. Ossos de animal numa paisagem formam uma terceira linha, geralmente entendida como passagem do tempo e não como ameaça.
Algumas tradições penduram outros sentidos nessa imagem, entre eles herança, ascendência e obrigações que vêm de trás. Vale conhecer isso como parte do registro interpretativo e não vale tratar como mais do que isso. Se o seu trabalho ou o seu estudo passa perto de esqueleto com regularidade, a carga simplesmente é menor, e esse fato banal importa mais que o simbolismo. Interpretar sonho é uma forma de descrever o que uma imagem evoca, jamais uma forma de saber o que vai acontecer.


