Um poder que a tradição descreve como indiferente a explicações, com a leitura mudando inteiramente conforme o lugar de onde a cena foi vista.
Encarar um leão, correr dele, dar comida a um e simplesmente passar ao lado são quatro sonhos distintos para a tradição, e não quatro versões do mesmo. O que muda de um para outro é a posição de quem sonha. Numa linha interpretativa bastante longa, o leão passou a representar uma força que não deve satisfação a ninguém, e a maior parte das leituras se apoia menos no bicho do que no ponto de onde ele foi visto. Quem conta esse sonho quase nunca descreve o pelo: descreve o peso do animal, a pausa antes de ele se mexer e a certeza de estar sendo olhado.
Coletâneas antigas de regiões muito distantes concordam num ponto: o leão raramente é figura neutra. Quando a pessoa fica calma e o animal também, o quadro costuma ser lido como uma autoridade com a qual ela já fez as pazes, a própria ou a de outro alguém. Um leão parado no meio do caminho vem sendo associado há séculos a um obstáculo que não dá para contornar, só para enfrentar. Preso numa jaula ou acorrentado, o sentido muda de novo: força mantida sob controle, seja pelas circunstâncias, pela boa educação ou pelo receio do que aconteceria se ela fosse solta.
Ser perseguido por um entra na família maior dos sonhos de perseguição, que costumam vir depois de um período fugindo de alguma coisa em vez de anunciar perigo. Uma conversa difícil adiada por semanas já dá material de sobra para a cabeça adormecida montar uma caçada.
Nada disso anuncia um confronto nem entrega coragem por encomenda. Leões também entram no sono por motivos banalíssimos: um documentário na véspera, uma visita ao zoológico, uma tarde inteira de escudo e bandeira no futebol. Um tratador que convive com felinos grandes não sonha com eles do mesmo jeito que alguém que sente medo desde criança. O que esse animal significou ao longo dos seus anos vale mais do que qualquer verbete.


