Bicho pequeno, veloz e assustadiço que a tradição amarrou à fartura, à sorte e ao nervosismo, com leituras bem diferentes conforme ele fique parado ou dispare.
Duas leituras antigas disputam o coelho. Uma é a da fartura, porque nenhum bicho de criação se multiplica tão depressa; a outra é a do sobressalto, porque o coelho resolve qualquer problema correndo. A tradição guardou as duas e usa uma ou outra conforme o animal do sonho estivesse comendo quieto ou disparando pelo mato. O amuleto de pé de coelho vem de um terceiro fio, o da sorte, que é regional e nunca valeu em toda parte.
A ideia de fartura sai de uma conta que qualquer criador conhece: uma coelheira que começa com dois não fica com dois por muito tempo. Por isso a imagem costuma ser lida como crescimento, como várias coisas engatando ao mesmo tempo ou como uma casa prestes a ficar mais cheia. A segunda ideia vem do modo como o bicho se defende, que é sumindo em vez de enfrentar. Os manuais mais velhos leem o coelho em fuga como retrato de um assunto que vem sendo contornado, e não como sinal de perigo rondando de verdade.
As variantes menores seguem o mesmo raciocínio. Coelho parado, comendo, é contado sobretudo em fases tranquilas e vira retrato de um conforto pequeno e suficiente. Coelho no colo aparece ligado a cuidado e a uma fragilidade que pede mão leve. Coelheira cheia vira vida doméstica, com o trabalho de manter muitas coisinhas funcionando ao mesmo tempo. A cor rendeu folclore à parte: o coelho branco ficou manso e digno de ser seguido graças a um século de literatura infantil, e não a alguma fonte antiga.
Nada disso passa na frente do bicho que a sua própria vida formou. Quem criou coelhos no quintal, quem caçou, quem viu a horta da família ser atacada toda primavera não encontra à noite o mesmo animal que alguém para quem coelho é sobretudo desenho de embalagem de Páscoa. Um verbete reúne tendências observadas entre muita gente e não alcança o exemplar guardado na sua cabeça, que é justamente o que entrou no sonho.


