A Lua chega ao ponto do céu contrário ao do Sol e mostra o disco todo aceso, e a tradição lê essa noite como um fechamento.
Lua cheia é o instante em que a Lua alcança o ponto do céu diretamente contrário ao do Sol, com a luz solar batendo quase de frente na face virada para nós. Todo o disco visível acende, e isso se repete a cada 29,5 dias, o tempo de um ciclo lunar completo. Vale guardar desde já que se trata de um instante cravado em hora e minuto, e não de uma noite.
Uma lua cheia nasce mais ou menos quando o Sol se põe, chega ao ponto mais alto no meio da madrugada e desce quando o dia começa a clarear. É a única fase que fica no céu a noite inteira, do começo ao fim. Esse é o teste caseiro: se a Lua já está alta às sete da noite, ela não está cheia, por mais que a legenda da foto prometa.
O horário sai da própria definição. Estar cheia significa estar do lado oposto ao Sol, então, quando o Sol desce de um lado, ela obrigatoriamente sobe do outro. Fase e horário andam juntos porque descrevem o mesmo arranjo entre três corpos.
A Lua não fabrica luz. Tudo o que você já enxergou dela é luz do Sol devolvida, e existe sempre uma metade acesa, em qualquer dia do mês. O que muda é o ângulo: as fases dependem apenas de quanto dessa metade iluminada está virada para cá enquanto a Lua percorre a órbita, o caminho fechado que ela faz em volta da Terra.
Na noite da cheia estamos olhando a metade acesa de frente. O alinhamento entre Sol, Terra e Lua chega perto de uma linha reta, mas quase nunca é exato, e essa folga tem consequência prática. O caminho da Lua está inclinado uns cinco graus em relação ao plano em que a Terra circula o Sol, de modo que na maioria dos meses ela passa por cima ou por baixo do cone de sombra que a Terra projeta atrás de si. Nos meses em que ela entra nessa sombra, acontece um eclipse lunar. Daí sai uma regra de mão dupla: eclipse da Lua só ocorre com lua cheia e, mesmo assim, a maior parte das luas cheias passa longe de qualquer eclipse.
Ninguém distingue a olho um disco aceso em 98 por cento de um aceso em 100 por cento. Por isso a Lua parece redonda em três noites seguidas e sempre tem gente discutindo qual delas foi a verdadeira. O instante exato costuma cair com a Lua abaixo do horizonte, ou com o céu já claro, e passa sem plateia.
Essa mesma precisão explica os calendários discordando. Uma fase marcada para as 01h20 de quinta no relógio universal cai na quarta à noite no horário de Brasília e no meio da tarde de quinta em Tóquio. Nenhuma das duas listas errou: é o mesmo momento anotado em relógios diferentes. Um calendário lunar só serve, portanto, quando está ajustado ao fuso do lugar onde você mora.
A órbita não é um círculo perfeito, e sim um oval, então a distância entre nós e a Lua varia dentro do mesmo mês. Uma cheia que acontece na ponta mais próxima aparece cerca de 14 por cento maior e uns 30 por cento mais brilhante do que uma na ponta mais afastada, e é isso que chamam de superlua. O detalhe é que a comparação só funciona com duas fotos lado a lado. Sozinha no céu, qualquer lua cheia parece grande.
Lua azul não tem cor alguma: é o apelido da segunda lua cheia a cair dentro de um mesmo mês do calendário, coisa que acontece a cada dois ou três anos, já que 29,5 dias cabem com folga em quase todos os meses. Lua da colheita é a cheia mais próxima do equinócio de setembro, o dia em que a luz e a escuridão ficam praticamente do mesmo tamanho. O apelido veio do hemisfério norte, onde ela nasce logo depois do pôr do sol em várias noites seguidas e rendia luz extra para terminar a lavoura. No Brasil essa data marca a entrada da primavera, então por aqui o nome descreve o campo do outro lado do mundo.
Como ficar cheia exige estar do outro lado do céu em relação ao Sol, a Lua cheia sempre cai no signo oposto àquele que o Sol está percorrendo. Com o Sol em Touro, a cheia do mês é em Escorpião. Com o Sol em Sagitário, ela é em Gêmeos. Não é combinação entre astrólogos, é a mesma geometria de antes, e por isso não falha nunca.
Isso costuma confundir quem está começando, porque a lua cheia leva o nome de um signo diferente da estação que você está vivendo. E é daí que a tradição tira a imagem usada para a data: dois signos contrários ocupados ao mesmo tempo, um pelo Sol e outro pela Lua, puxando de pontas opostas. Onde a lua nova entra como começo, a cheia entra como ponto alto, a hora em que aquilo que foi posto para andar aparece ou mostra o que valia. Na prática, essa marca no calendário costuma servir para quatro coisas:
São leituras colocadas por cima de um ritmo natural confiável, e não efeitos que alguém tenha medido. O valor delas está no lembrete: uma data que volta todo mês e pede uma revisão do que você começou já se paga, com Lua ou sem Lua na resposta.
As alegações mais repetidas, mais partos, mais acidentes, mais insônia, já foram testadas muitas vezes, e os resultados voltam fracos e contraditórios. Não existe evidência firme de efeito lunar sobre o comportamento humano, e quem garante o contrário está indo bem além do que se conseguiu mostrar.
Duas explicações mais simples dão conta da fama. Uma noite de lua cheia é de fato muito mais iluminada, e durante quase toda a história isso separou quem podia se deslocar depois do escuro de quem ficava parado, o que já basta para a data ter virado marco antes de existir horóscopo. A segunda é a expectativa: sabendo que hoje tem lua cheia, uma noite mal dormida entra na conta dela, enquanto uma noite igualzinha, quinze dias antes, foi apenas uma noite ruim.


