Eclipses da Lua e do Sol

O eclipse acontece quando Sol, Terra e Lua ficam quase em linha reta, e essa exigência de pontaria é o motivo de as datas chegarem sempre em pares.

Eclipse lunar é a sombra da Terra caindo sobre a Lua. Eclipse solar é o contrário: a Lua entra na frente do Sol e joga a sombra dela sobre uma faixa do nosso planeta. Os dois casos exigem Sol, Terra e Lua quase na mesma linha reta, e é essa pontaria que reduz o fenômeno a duas ou três ocasiões por ano, em vez de uma por mês.

Por que não cai um eclipse todo mês

O Sol só pode ser encoberto na lua nova, e a Lua só encontra a nossa sombra quando está cheia. Essas duas fases voltam a cada 29,5 dias e quase sempre passam em branco. A culpa é de uma inclinação: a Lua não gira em torno da Terra pelo mesmo plano da volta que a Terra dá no Sol, e sim por um caminho torto, pouco mais de cinco graus fora. Por isso a lua nova costuma cruzar acima ou abaixo do disco solar, e a lua cheia passa raspando por fora do cone escuro que a Terra deixa atrás de si.

Os dois pontos em que a órbita lunar fura esse plano se chamam nodos. Para haver eclipse, a lua nova ou a lua cheia precisa cair perto de um nodo, e o Sol chega perto de um deles a cada 173 dias, ou seja, duas vezes por ano. Cada visita dessas abre uma temporada de eclipses de pouco mais de um mês, que comporta uma lua nova e uma lua cheia separadas por quinze dias: por isso as datas vêm em dupla, uma solar e uma lunar. E como 173 dias é menos que meio ano, a temporada seguinte se adianta no calendário. Em doze meses cabem no mínimo quatro eclipses e, em anos excepcionais, sete.

Por cima disso corre um ciclo mais longo, o saros, já anotado pelos babilônios: passados 18 anos, 11 dias e cerca de 8 horas a geometria se repete quase igual, e as horas de sobra giram a Terra um terço de volta, jogando o eclipse gêmeo para outro continente.

Quando a Lua tapa o Sol

O encaixe entre os dois discos é um acaso de medidas: o Sol tem cerca de quatrocentas vezes a largura da Lua e está cerca de quatrocentas vezes mais longe, então os dois aparecem daqui quase do mesmo tamanho. O acaso tem prazo de validade, porque a Lua se afasta de nós quase quatro centímetros por ano.

  • Total. A Lua está no trecho mais próximo da órbita, parece maior que o Sol e esconde o disco inteiro. O limite teórico da fase total fica perto de sete minutos e meio.
  • Anular. A Lua está no trecho mais distante, parece um pouco menor e deixa escapar um anel de luz em volta da borda. O nome vem de anulus, anel em latim.
  • Parcial. O alinhamento sai do centro e falta apenas uma mordida no Sol. É a versão que a maioria das pessoas enxerga.

O aviso sobre a vista não é formalidade. Encarar um Sol coberto pela metade queima a retina de forma permanente e sem doer, porque no fundo do olho não há receptores de dor para avisar. Óculos escuros, vidro esfumaçado e a câmera do celular não protegem: serve só filtro certificado para observação solar. A exceção são os poucos minutos de totalidade, e o filtro volta assim que reaparece o primeiro fio de luz. Num eclipse anular ele não sai nunca, porque um anel de Sol continua sendo Sol.

Quando a sombra da Terra alcança a Lua

A sombra do nosso planeta tem duas camadas. O cone interno, onde a luz do Sol fica bloqueada por completo, se chama umbra; a faixa mais fraca em volta dele, onde o Sol fica tapado só em parte, se chama penumbra. Lua inteira dentro da umbra é eclipse total; parte dela dentro, eclipse parcial, com uma borda escura e curva avançando sobre o disco, a mesma curva que serviu de argumento antigo para dizer que a Terra é redonda. Se ela cruza só a penumbra, o eclipse é penumbral e passa quase despercebido.

A parte famosa é a cor. Uma Lua totalmente eclipsada não apaga, ela fica cor de cobre, e o crédito é da nossa atmosfera: a luz do Sol que raspa a borda do mundo se entorta para dentro da sombra, perde os tons frios no percurso e chega avermelhada do outro lado. Quem observa está vendo, somados, todos os amanheceres e todos os entardeceres em curso na Terra naquele instante. Lua de sangue foi o apelido que colou. E esse eclipse é generoso: dura horas, aparece para o lado do planeta que está de noite e dispensa equipamento.

O sentido que a tradição acrescenta

Na leitura astrológica o eclipse funciona como uma lua nova ou uma lua cheia com o volume no máximo: o sentido de base não muda, começo em uma e desfecho na outra, e o que cresce é a escala e a pressa. A associação é com viradas que chegam sem preparo e com encerramentos que, tempos depois, parecem portas de entrada.

Os nodos reaparecem aqui com outros nomes. O cruzamento em que a Lua sobe rumo ao norte é a Cabeça do Dragão, lida como a direção em que a pessoa teria de crescer; o ponto oposto é a Cauda do Dragão, o terreno conhecido que a tradição manda soltar. Como os dois ficam em pontas contrárias da roda dos signos, cada série de eclipses cai sobre uma dupla de signos opostos e fica nela por volta de um ano e meio, o que dá a impressão de insistência na mesma área da vida.

Antes disso a leitura era mais pesada: o eclipse valia como presságio ruim endereçado ao rei, e tabuletas mesopotâmicas descrevem reis substitutos postos no trono para receber o que viesse. O susto se entende diante de um Sol que se apaga ao meio-dia, mas vale separar as camadas: o cálculo explica o fenômeno, a tradição acrescenta um sentido que dele não se deduz.

Como ler uma tabela de datas

Eclipse solar marcado no calendário não promete espetáculo na sua janela. Toda lista confiável escreve, ao lado do horário, a região de onde ele vai ser visto: a faixa de totalidade é estreita e o resto do mundo fica com uma versão parcial ou com nada. Em outubro de 2023, por exemplo, o anel do eclipse anular passou pelo Norte e pelo Nordeste do Brasil, enquanto no Sudeste a mesma data rendeu só um pedaço mordido do Sol. Com os lunares esse cuidado não é preciso: um deles é visto por metade do planeta de uma vez.

Num ponto fixo do mapa a totalidade solar é tão rara que aparece, na média, uma vez a cada quatro séculos, e quase todo mundo que já viu uma viajou para isso. Uma nota final sobre a exatidão dessas tabelas: os horários saem com séculos de antecedência, ao minuto, e se cumprem. Essa precisão pertence à mecânica de três corpos em movimento, não ao significado colocado por cima dela, e distinguir as duas coisas é o jeito honesto de usar uma página de eclipses, esta inclusive.

Perguntas frequentes

Quantos eclipses acontecem por ano?
Entre quatro e sete, contando os penumbrais fracos, que quase ninguém percebe. Eles não vêm espalhados pelo calendário: se concentram em temporadas que voltam a cada 173 dias, normalmente duas por ano, e cada uma costuma render um eclipse solar e um lunar com quinze dias de distância. De um ponto fixo do mundo, porém, você vê bem menos que isso, porque boa parte deles acontece do outro lado do planeta ou com o Sol e a Lua abaixo do horizonte.
Dá para olhar um eclipse sem proteção?
O da Lua sim, a olho nu e sem risco nenhum, e ele nem exige equipamento. O do Sol não: um pedacinho de disco descoberto já basta para machucar a vista de forma definitiva, e sem que você sinta dor na hora. Filtro homologado para observação solar é obrigatório, óculos escuros comuns não substituem, e só nos poucos minutos de totalidade o filtro pode sair.
Por que a Lua fica avermelhada quando é eclipsada?
Porque a atmosfera da Terra funciona como uma lente e um filtro ao mesmo tempo: ela entorta um pouco de luz solar em volta do planeta, manda essa luz para dentro da região escura e retém os tons frios no caminho. Só a parte avermelhada completa a viagem, e é ela que ilumina o disco. O tom varia de um eclipse para outro conforme a poeira e as nuvens que a luz atravessou.
Eclipse dá azar?
Foi lido assim durante milênios, sobretudo porque um escurecimento repentino em pleno dia assusta quem não sabe a origem dele. A astrologia de hoje suavizou muito o tom e prefere falar em pontos de virada acelerados. Nenhuma das duas versões passou por comprovação, e o que se observa continua sendo uma sombra chegando na hora prevista.

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