A nota de afinidade entre dois signos compara uma coisa só, a distância entre eles na roda, e existem perguntas de um relacionamento real que ela nunca responde.
A nota de compatibilidade entre dois signos sai de uma conta única: quantas posições separam um do outro na roda de doze. Cada distância tem um significado pendurado nela desde os manuais antigos, quatro posições valem a avaliação mais alta e três valem a mais áspera, e é daí que vem praticamente toda tabela de afinidade em circulação. Essa conta não mede a chance de um casal durar. Ela mede o tanto de tradução que duas pessoas precisam fazer para se entender.
Ponha os doze signos em círculo, de Áries a Peixes, e escolha dois deles. Conte a distância pelo lado mais curto e o resultado vai de zero a seis, porque a partir do sétimo passo você já está voltando para o ponto de partida. Cada passo vale trinta graus, já que a volta inteira tem 360 e os signos são doze. O ângulo formado por dois pontos assim se chama aspecto, e é o aspecto que decide o veredito.
Andar quatro posições cai fatalmente em um signo do seu elemento, a repartição dos doze em fogo, terra, ar e água. Andar três cai fatalmente em um signo da sua modalidade, que separa quem prefere iniciar, quem prefere manter e quem prefere mudar o rumo. Todo o motor da pontuação é essa dupla coincidência, e mais nada.
Elemento em comum é lido como ritmo e temperatura semelhantes, o que poupa explicação na vida de todo dia. Modalidade em comum é lido como duas pessoas querendo a mesma parte do serviço, o que parece acordo e se comporta como disputa. Nenhum dos dois resultados prevê coisa alguma. A conta desconhece por completo as duas pessoas e devolve a mesma resposta para todos os taurinos e todas as virginianas do planeta.
O signo solar é uma posição entre as dez ou onze que um mapa astral registra, e esse mapa é só o retrato do céu sobre um endereço em um minuto. Várias das outras posições dizem mais sobre convivência do que o Sol.
Comparar dois mapas inteiros tem nome próprio: sinastria, que consiste em colocar um ao lado do outro e medir as distâncias entre os planetas de um e os do outro. O resultado é bem mais específico do que uma porcentagem de manchete, e exige a hora de nascimento das duas pessoas, ponto em que a maioria das comparações caseiras trava.
A limitação dá para conferir sem calculadora. Duas pessoas do mesmo signo nascidas com dez dias de diferença podem não se parecer em nada, e ainda assim qualquer tabela baseada só no Sol entrega a elas a mesma avaliação diante de qualquer parceiro que aparecer.
Uma pontuação baixa fala de atrito, e atrito não é fracasso. Nos textos antigos, a quadratura não é o par que termina; é o par que muda as duas pessoas, com o argumento de que nada obriga alguém a rever um hábito tão depressa quanto morar com quem não tem esse hábito. Casamentos de trinta anos acontecem em cima de combinações mal avaliadas, e pares bem avaliados acabam toda semana.
Há uma parte que precisa ser dita sem rodeios. Quem foi atrás de uma ligação entre duplas de signos e o desfecho real de casamentos e separações, inclusive em bases estatísticas grandes, não achou efeito que se repetisse. A compatibilidade astrológica funciona como vocabulário para descrever uma diferença, não como instrumento de previsão, e todo site que mostra uma porcentagem deveria escrever isso do lado dela.
Leia o texto e ignore o número que aparece em cima dele. Uma frase dizendo que um lado decide na hora enquanto o outro precisa dormir sobre o assunto vale mais do que qualquer porcentagem, porque nomeia algo que dá para conferir contra a semana passada. É essa a parte que a tradição entrega de fato: palavras para uma diferença que os casais costumam discutir sem conseguir descrever.
Um par marcado como tenso mostra onde a discussão provavelmente vai morar, e saber disso antes vale mais do que ouvir que vocês nasceram para se encontrar. Um par marcado como fácil traz o aviso oposto: quem quase não se esbarra costuma demorar a perceber que existe um problema.
O que leitura nenhuma resolve é a pergunta de ficar ou de ir embora. A roda não sabe como cada um age sob pressão, o que vocês já atravessaram lado a lado, nem se vocês continuam gentis entre si num dia ruim. São essas coisas que decidem, e nenhuma delas cabe em uma medida de trinta graus.


