Os planetas retrógrados além de Mercúrio

O mesmo efeito visual de Mercúrio aparece em Vênus, Marte e nos planetas distantes, com duração muito diferente em cada caso e uma leitura própria para cada um.

Fora o Sol e a Lua, todo corpo que a astrologia acompanha fica retrógrado de tempos em tempos, ou seja, passa um período parecendo caminhar para trás no céu quando observado da Terra. Mercúrio apenas ficou com a fama. Vênus faz o mesmo a cada dezenove meses, Marte a cada dois anos e pouco, e Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão repetem o movimento uma vez por ano, cada um por vários meses seguidos.

Nenhum planeta anda de ré: o que muda é o ângulo

Todos giram ao redor do Sol sempre no mesmo sentido, sem frear e sem voltar. Quem também se mexe é o observador, porque a Terra corre na própria órbita, e a direção em que enxergamos os outros depende de onde estamos em relação a eles.

Para tudo que orbita além de nós, de Marte a Plutão, o recuo aparente nasce de uma ultrapassagem, e quem ultrapassa é a Terra: a nossa volta é menor e mais rápida, então uma vez por ano alcançamos cada planeta lento e passamos por dentro dele. Durante a passagem ele parece deslizar de volta contra as estrelas do fundo, e depois retoma o sentido de antes. Acompanhe Marte com um mapa celeste por alguns meses e vai ver o planeta desenhar um laço preguiçoso: esse desenho é o fenômeno inteiro.

Existe uma consequência bonita nisso: o meio do período retrógrado de um planeta externo cai quase no dia em que ele fica mais perto da Terra e no ponto do céu oposto ao Sol, o que os astrônomos chamam de oposição. É quando ele brilha mais e fica visível do anoitecer ao amanhecer. Júpiter retrógrado não é um Júpiter apagado: é o melhor Júpiter do ano para apontar um binóculo.

Com Vênus a geometria se inverte, já que a órbita dele fica dentro da nossa. Ele volta atrás justamente quando corta o espaço entre a Terra e o Sol, e por isso aparece perto de nós e fino, uma foice em qualquer luneta.

Quanto tempo cada planeta passa nessa condição

A duração depende de como a velocidade do planeta se compara com a nossa. Quanto mais afastado e lento o corpo, mais comprido fica cada episódio.

  • Mercúrio. Três vezes por ano, às vezes quatro, por cerca de três semanas cada.
  • Vênus. Perto de uma vez a cada dezenove meses, por umas seis semanas. É o mais raro entre os que se acompanham na prática.
  • Marte. A cada dois anos e dois meses, aproximadamente, e dura de dois meses a dois meses e meio.
  • Júpiter. Uma vez a cada treze meses, mais ou menos, por volta de quatro meses de cada vez.
  • Saturno. Uma vez por ano, por uns quatro meses e meio.
  • Urano e Netuno. Uma vez por ano cada um, por algo próximo de cinco meses.
  • Plutão. Uma vez por ano, por pouco mais de cinco meses, mais de um terço do calendário.

Junte tudo e o retrato muda. Num dia comum, dois ou três planetas estão retrógrados ao mesmo tempo, e as janelas em que nenhum está se resumem a poucas semanas soltas do ano. O raro é o céu sem nenhum, não o céu com vários.

Por que isso não pode significar azar

Basta olhar a lista acima: se estar de ré fosse ameaça, Plutão ameaçaria a humanidade inteira em mais de um terço de cada ano, e um alerta que vale quase sempre deixa de avisar.

Quem trabalha com os planetas distantes já resolve isso na prática. Para Urano, Netuno e Plutão a condição retrógrada funciona como pano de fundo, comentada só quando o planeta empaca em cima de um ponto que importa naquele mapa específico. O trabalho pesado da interpretação fica com os vizinhos rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte, enquanto Júpiter e Saturno recebem um tratamento mais brando.

A leitura tradicional, planeta por planeta

Nada do que vem abaixo saiu de medição. É simbolismo herdado, e serve melhor como assunto para pensar do que como aviso de acontecimento.

Vênus retrógrado está ligado a afeto, dinheiro e gosto, então essas semanas são lidas como uma revisão do que você valoriza. A versão popular é o antigo namorado que reaparece e a compra por impulso que vira arrependimento. O conselho de sempre é adiar o que for estético e difícil de desfazer, como casamento, reforma grande ou mudança no rosto, porque o seu senso do que agrada andaria instável.

Marte retrógrado responde por impulso e força, e o período recebe a leitura de esforço que não pega no tranco: campanha lançada aí empaca, discussão fica dando voltas, raiva é engolida em vez de gasta. Como ele só recua de dois em dois anos e fica assim por meses, os astrólogos apontam esse período como o pior para estrear projeto.

Júpiter retrógrado vira o crescimento para dentro. A tradição enxerga nesses meses um intervalo para rever aquilo em que você acredita e perguntar se o que vem crescendo merece crescer mais.

Saturno retrógrado é lido como auditoria das estruturas: os compromissos assumidos, a disciplina, os arranjos que mantêm uma vida em pé. Saturno em marcha normal costuma ser descrito como pressão que vem de fora; de ré, como a cobrança que vem de você.

Nascer com um planeta de ré

Como os corpos distantes passam meses de cada ano assim, nascer com alguns deles retrógrados é o mais banal que existe. A maioria dos mapas de nascimento, que são o desenho das posições ocupadas pelos planetas na hora e na cidade em que alguém nasceu, traz pelo menos um, e três ou quatro não espantam ninguém.

Aqui a tradição muda de assunto. Um planeta retrógrado de nascimento, coisa diferente de um planeta retrógrado hoje, é lido como uma função que trabalha para dentro: Marte assim vira raiva que não sai, Vênus vira afeto demonstrado com atraso ou sem jeito, Mercúrio vira a cabeça que ensaia calada antes de falar em voz alta. Quem interpreta costuma completar que essa função amadurece devagar, e não que funcione mal.

A ressalva honesta é a de sempre: o que vale para quase todo mundo nascido no seu ano não fala de você em particular.

Os dias de virada e o uso de um calendário

Cada período abre e fecha com uma estação, que é o punhado de dias em que o planeta parece ficar quase imóvel num mesmo trecho do zodíaco, a faixa do céu por onde todos eles desfilam, antes de o sentido aparente trocar. Quanto mais longe o corpo, mais lenta a virada: um planeta externo chega a passar uma semana praticamente parado, e quem o acompanha presta atenção no ponto em que ele parou, não numa data cravada.

O uso prático é modesto. Anote quando o período abre e quando termina, veja de que assunto aquele planeta cuida pela tradição e segure a interpretação com folga, para que uma semana ruim qualquer não entre na conta como prova.

Uma observação final sobre a física, porque poucas coisas na astrologia têm explicação tão assentada. Esses laços para trás eram o grande problema do modelo antigo que colocava a Terra no centro, e viraram simples ultrapassagem assim que o Sol foi para o meio. O movimento aparente é real e pode ser calculado ao minuto para séculos à frente. Que ele signifique alguma coisa na sua vida é outra afirmação, e essa se apoia na tradição, não em medida.

Perguntas frequentes

Quais planetas ficam retrógrados?
Todos, menos o Sol e a Lua. De Mercúrio a Plutão cada corpo tem o próprio ciclo, que vai de umas três semanas nos mais próximos a mais de cinco meses nos mais afastados. As duas luzes ficam de fora porque o caminho aparente do Sol é a órbita da própria Terra vista de dentro, e a Lua nos rodeia sempre no mesmo sentido.
De quanto em quanto tempo Vênus retrograda?
Uma vez a cada dezenove meses, aproximadamente, e cada temporada leva por volta de seis semanas. Por ser o mais espaçado dos retrógrados que as pessoas acompanham de perto, um único episódio rende muito mais comentário do que qualquer temporada de Mercúrio. Cada ocorrência também cai num trecho diferente do céu.
Marte retrógrado é pior que Mercúrio retrógrado?
Os astrólogos costumam considerá-lo mais difícil de contornar, sobretudo pela extensão: são dois meses ou mais contra cerca de três semanas, e ainda com um intervalo de dois anos entre uma vez e outra, o que dá tempo para a interpretação se acumular. Nenhum dos dois anuncia desgraça. São apenas trechos que a tradição julga inadequados para certos tipos de começo.
Nasci com planetas retrógrados, isso atrapalha?
É comuníssimo e ninguém trata como defeito. A interpretação usual diz que o planeta age por dentro, mostrando-se no privado antes de aparecer em público e chegando ao próprio ponto mais tarde do que chegaria. Como os corpos externos passam boa parte do ano nessa posição, ter vários deles conta mais sobre o ano do seu nascimento do que sobre quem você é.

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