O mesmo efeito visual de Mercúrio aparece em Vênus, Marte e nos planetas distantes, com duração muito diferente em cada caso e uma leitura própria para cada um.
Fora o Sol e a Lua, todo corpo que a astrologia acompanha fica retrógrado de tempos em tempos, ou seja, passa um período parecendo caminhar para trás no céu quando observado da Terra. Mercúrio apenas ficou com a fama. Vênus faz o mesmo a cada dezenove meses, Marte a cada dois anos e pouco, e Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão repetem o movimento uma vez por ano, cada um por vários meses seguidos.
Todos giram ao redor do Sol sempre no mesmo sentido, sem frear e sem voltar. Quem também se mexe é o observador, porque a Terra corre na própria órbita, e a direção em que enxergamos os outros depende de onde estamos em relação a eles.
Para tudo que orbita além de nós, de Marte a Plutão, o recuo aparente nasce de uma ultrapassagem, e quem ultrapassa é a Terra: a nossa volta é menor e mais rápida, então uma vez por ano alcançamos cada planeta lento e passamos por dentro dele. Durante a passagem ele parece deslizar de volta contra as estrelas do fundo, e depois retoma o sentido de antes. Acompanhe Marte com um mapa celeste por alguns meses e vai ver o planeta desenhar um laço preguiçoso: esse desenho é o fenômeno inteiro.
Existe uma consequência bonita nisso: o meio do período retrógrado de um planeta externo cai quase no dia em que ele fica mais perto da Terra e no ponto do céu oposto ao Sol, o que os astrônomos chamam de oposição. É quando ele brilha mais e fica visível do anoitecer ao amanhecer. Júpiter retrógrado não é um Júpiter apagado: é o melhor Júpiter do ano para apontar um binóculo.
Com Vênus a geometria se inverte, já que a órbita dele fica dentro da nossa. Ele volta atrás justamente quando corta o espaço entre a Terra e o Sol, e por isso aparece perto de nós e fino, uma foice em qualquer luneta.
A duração depende de como a velocidade do planeta se compara com a nossa. Quanto mais afastado e lento o corpo, mais comprido fica cada episódio.
Junte tudo e o retrato muda. Num dia comum, dois ou três planetas estão retrógrados ao mesmo tempo, e as janelas em que nenhum está se resumem a poucas semanas soltas do ano. O raro é o céu sem nenhum, não o céu com vários.
Basta olhar a lista acima: se estar de ré fosse ameaça, Plutão ameaçaria a humanidade inteira em mais de um terço de cada ano, e um alerta que vale quase sempre deixa de avisar.
Quem trabalha com os planetas distantes já resolve isso na prática. Para Urano, Netuno e Plutão a condição retrógrada funciona como pano de fundo, comentada só quando o planeta empaca em cima de um ponto que importa naquele mapa específico. O trabalho pesado da interpretação fica com os vizinhos rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte, enquanto Júpiter e Saturno recebem um tratamento mais brando.
Nada do que vem abaixo saiu de medição. É simbolismo herdado, e serve melhor como assunto para pensar do que como aviso de acontecimento.
Vênus retrógrado está ligado a afeto, dinheiro e gosto, então essas semanas são lidas como uma revisão do que você valoriza. A versão popular é o antigo namorado que reaparece e a compra por impulso que vira arrependimento. O conselho de sempre é adiar o que for estético e difícil de desfazer, como casamento, reforma grande ou mudança no rosto, porque o seu senso do que agrada andaria instável.
Marte retrógrado responde por impulso e força, e o período recebe a leitura de esforço que não pega no tranco: campanha lançada aí empaca, discussão fica dando voltas, raiva é engolida em vez de gasta. Como ele só recua de dois em dois anos e fica assim por meses, os astrólogos apontam esse período como o pior para estrear projeto.
Júpiter retrógrado vira o crescimento para dentro. A tradição enxerga nesses meses um intervalo para rever aquilo em que você acredita e perguntar se o que vem crescendo merece crescer mais.
Saturno retrógrado é lido como auditoria das estruturas: os compromissos assumidos, a disciplina, os arranjos que mantêm uma vida em pé. Saturno em marcha normal costuma ser descrito como pressão que vem de fora; de ré, como a cobrança que vem de você.
Como os corpos distantes passam meses de cada ano assim, nascer com alguns deles retrógrados é o mais banal que existe. A maioria dos mapas de nascimento, que são o desenho das posições ocupadas pelos planetas na hora e na cidade em que alguém nasceu, traz pelo menos um, e três ou quatro não espantam ninguém.
Aqui a tradição muda de assunto. Um planeta retrógrado de nascimento, coisa diferente de um planeta retrógrado hoje, é lido como uma função que trabalha para dentro: Marte assim vira raiva que não sai, Vênus vira afeto demonstrado com atraso ou sem jeito, Mercúrio vira a cabeça que ensaia calada antes de falar em voz alta. Quem interpreta costuma completar que essa função amadurece devagar, e não que funcione mal.
A ressalva honesta é a de sempre: o que vale para quase todo mundo nascido no seu ano não fala de você em particular.
Cada período abre e fecha com uma estação, que é o punhado de dias em que o planeta parece ficar quase imóvel num mesmo trecho do zodíaco, a faixa do céu por onde todos eles desfilam, antes de o sentido aparente trocar. Quanto mais longe o corpo, mais lenta a virada: um planeta externo chega a passar uma semana praticamente parado, e quem o acompanha presta atenção no ponto em que ele parou, não numa data cravada.
O uso prático é modesto. Anote quando o período abre e quando termina, veja de que assunto aquele planeta cuida pela tradição e segure a interpretação com folga, para que uma semana ruim qualquer não entre na conta como prova.
Uma observação final sobre a física, porque poucas coisas na astrologia têm explicação tão assentada. Esses laços para trás eram o grande problema do modelo antigo que colocava a Terra no centro, e viraram simples ultrapassagem assim que o Sol foi para o meio. O movimento aparente é real e pode ser calculado ao minuto para séculos à frente. Que ele signifique alguma coisa na sua vida é outra afirmação, e essa se apoia na tradição, não em medida.


