Quase todo o mapa se calcula igual: Sol, planetas e, na maioria das datas, a Lua. Fica de fora só o ascendente, o signo que subia no horizonte leste.
Sem a hora do nascimento você ainda calcula quase tudo: o signo solar continua o mesmo, o de cada planeta também e, na maior parte das datas, o da Lua. Some apenas a camada que se mede a partir da linha do horizonte, e essa é justamente a parte que ninguém consegue adivinhar por você com honestidade.
O Sol gasta cerca de um ano para percorrer o zodíaco inteiro, o que dá perto de trinta dias por signo e mais ou menos um grau de deslocamento por dia. A não ser que você tenha nascido bem na data em que ele trocou de signo, o horário não muda nada ali. Nessa data de virada a troca pode cair em qualquer momento, e aí a data sozinha deixa duas respostas abertas.
Com os planetas, quer dizer, os outros corpos que um mapa marca ao lado do Sol e da Lua, vale o mesmo, com folga. Júpiter precisa de uns doze anos para dar a volta completa e Saturno de quase trinta, então em vinte e quatro horas os dois andam uma fração de grau. Mercúrio, Vênus e Marte são mais ligeiros, mas nem de longe rápidos o bastante para separar quem nasceu de manhã de quem nasceu à noite. Coloque data e cidade em uma calculadora: o signo de cada planeta volta igual, seja qual for o horário digitado.
A Lua é a apressada da lista. Ela cobre uns treze graus de céu em um dia, e como cada signo ocupa trinta graus ela cruza uma fronteira a cada dois dias e um quarto, mais ou menos. Em pouco mais da metade das datas ela fica no mesmo signo da meia-noite à meia-noite, e no restante não fica.
Isso se resolve em dois minutos. Rode a sua data duas vezes, uma com o horário logo depois da meia-noite e outra pouco antes dela, e compare os resultados. Se o signo lunar voltar idêntico, o relógio nunca teve peso ali e você pode tratar a posição como fato. Se discordarem, sobram dois candidatos em vez de doze, e mesmo uma lembrança vaga da família (foi de manhã, foi depois do jantar) costuma bastar para escolher.
Três coisas dependem do horizonte, e o horizonte depende do relógio:
Isso pesa mais do que parece, porque boa parte do que se escreve sobre mapa astral por aí trata das tais fatias. Quando um aplicativo comenta a sua área do lar ou a sua área de carreira, ele está gastando um horário que talvez você não tenha. Se o dado que entrou foi inventado, o que veio em cima dele também é invenção.
Antes de aceitar um mapa sem hora, vale procurar direito. A lei brasileira de registros públicos manda anotar a hora do nascimento no livro do cartório sempre que ela é conhecida, e a declaração de nascido vivo, o formulário que a maternidade preenche, costuma trazer o horário. A sua cópia não mostrar nada não significa que nada tenha sido registrado.
Duas ressalvas sobre horário lembrado de cabeça. A primeira é o arredondamento: um número recuperado décadas depois quase sempre é redondo, e número redondo cai perto demais das fronteiras que decidem um ascendente. A segunda é a definição: o instante anotado pode ser o primeiro choro, o corte do cordão ou o momento em que alguém enfim olhou para o relógio, e esses pontos ficam a vários minutos uns dos outros.
Quando o dado não aparece mesmo, astrólogos recorrem a uma convenção declarada em vez de um palpite. A mais comum é fixar o horário ao meio-dia, por aritmética simples: o meio-dia fica no miolo do dia, põe a Lua na metade do caminho que ela percorre e corta pela metade o maior erro possível naquela posição. Ninguém afirma que meio-dia seja verdade. É um preenchimento, e quem trabalha direito marca o mapa como sem hora para a convenção não virar registro depois.
Outra convenção usa o nascer do sol na cidade do parto, o que coloca o Sol na borda leste e faz o signo solar servir de ascendente. Isso não recupera nada e não deve ser apresentado como se recuperasse: é um substituto assumido, para quem quer usar a estrutura das doze fatias sabendo que ela é fictícia.
A retificação vai no sentido contrário. O astrólogo pega acontecimentos datados da sua vida, uma mudança, um casamento, uma perda, e testa horários candidatos até achar um que combine com eles. É prática antiga e séria, mas é interpretação, não medição: dois profissionais diante da mesma biografia chegam a resultados diferentes, porque pesam os fatos de outro jeito. Uma hora retificada é hipótese de trabalho, não documento, e o melhor é deixar isso escrito ao lado dela.
Um mapa sem hora é parcial, não é defeituoso. Você fica com o Sol, quase sempre com a Lua, com todos os planetas em seus signos e com a maior parte das relações entre eles, quer dizer, as distâncias em graus que um corpo forma com o outro, medidas de planeta a planeta e não a partir do horizonte. Só as que envolvem a Lua oscilam num dia sem horário definido, e dentro de uma faixa conhecida.
O que torna um mapa sem hora útil é a etiqueta. Saiba quais linhas são firmes, qual delas é preenchimento e quais faltam. Quem diz na sua cara que o seu ascendente é desconhecido presta um serviço melhor do que quem tapa o buraco, porque uma resposta apoiada em nada vai atrás de você por anos.


